Meu avô – Henrique Gurgel do Amaral Valente II

Por dom Newton Holanda Gurgel (*)

Posso dizer que o conheci entre os anos de 1930-1954, ano de sua morte. Nossa primeira escola, de nossos irmãos e de muita gente da vila de Lages, foi na sua casa. Com a sua filha, Lídia, minha tia e madrinha de batismo.

Era ela professora, como se dizia então,de 4ª. Entrança. Foi ela que me preparou para o Seminário. Ao concluir, com ela, o curso preparatório à Admissão, eu me julgava um doutor. Sabia tudo! Vou estudar no Seminário do Crato.

Quando em março de 1937, ali cheguei, padre Montenegro, mestre de disciplina, fez um teste inicial, perguntando-me: “A rosa é bela”, quem é o sujeito. Respondi prontamente: A rosa. “Está aprovado”, disse ele. “Vai para o primeiro ano ginasial”.

A escola na casa de meu avô era assim: um verdadeiro curso preparatório de vestibular ao ginásio, ensinando até rudimentos de arte musical.

Ali todos falávamos com relativa correção gramatical. Não se dizia, por exemplo, pega ele, ontonte, gunverno, cravão,e outras barbaridades correntes.

Minha avó porém era semi-analfabeta, mal ferrava o nome.Já o meu avô era um tipo versátil,conversador compulsivo, falava com desembaraço e, para mim, com muita sabedoria, vivacidade e pureza vernacular.

Certa vez, no fim das férias, fui até sua casa fora da vila, à margem do “rio” Quincoê , para me despedir e lhe perguntei: “Como o sr. está de saúde, vovô .Prontamente respondeu. “Vou bem ,mas como você sabe.

“senectus est morbus” não é . Só mais tarde, no decorrer dos estudos de Seminário pude averiguar o alcance e veracidade do provérbio latino atribuído a Publius Terentius que viveu antes de Cristo (AC).

Espirituoso: era ele , meu avô, um homem bem humorado, espontâneo e pronto a responder à qualquer provocação, especialmente dos adversários políticos.

Estava sempre ao lado do vigário,padre João Antonio, sobretudo no tempo da LEC (Liga Eleitoral Católica) e em tudo mais o apoiava irrestritamente.

Do altar, o sacerdote fazia também uma campanha aberta e ardorosa contra a Maçonaria. E acontece, por ironia do destino, que suas duas últimas filhas terminaram casando com maçons. Foi o bastante para os seus adversários políticos lhe lançassem um susto: “Olhe aí,seu Henrique, o Sr.agora tem dois maçons na família”. Prontamente ele retornou ao

interlocutor: ”Isto é muito bom para você ficar sabendo que não é só sua família que tem gente ruim”.

Fervia a política, na aldeia, quando aportou ali uma boiada de gado zebu, que era novidade. Ficou encurralada no pátio da matriz para a venda de espécimes aos pecuaristas locais.

Francisco Guilherme, seu genro, estava negociando um plantel de novilhotes para sua fazenda. Um deles tinha rajas no focinho que lembravam um pouco a fisionomia de Moreira Lima, candidato da oposição ao da LEC para o governo do Ceará.Ele,meu avô, foi chegando e logo dizendo:

“Compre não,Chico. Esse aí tem a cara do Moreira Lima”.

Todos riram e o garrote foi substituído por outro.

Era assim avô: sempre alegre, otimista e criativo. Também muito “curioso” no fabrico de artigo de consumo doméstico, como farinha, rapadura e sabão.

Mocororó: certa vez o escutei falando desta bebida de origem indígena, cajuína “artesanal” que aprendera a fabricar com os nativos, no Siqueira, propriedade rural da família,hoje centro urbano em Fortaleza.

Guardo também com carinho no arquivo da memória: mesmo sendo portador de uma incômoda hérnia inguinal,ele não se abatia. Gostava de andar pelas ruas soltando o verbo na sua natural loquacidade e envergando o seu uniforme cáqui. Eu estava vendendo cautelas de uma rifa em favor das Obras das Vocações Sacerdotais (OVS). Então o abordei e frente à

nossa casa, ao lado da matriz, Imediatamente, notando minha timidez, ele empunhou a caneta e desembaraçadamente, apoiando-se na janela, firmou bela máscula caligrafia o seu sonoro nome: Henrique Gurgel Valente,pagando em seguida.

São estes alguns retalhos , colhidos ao léu no acervo da memória que vão registrados acima,em homenagem àquele homem simples, de pequena estatura mas gigante no espírito e na bela lição de vida que soube legar a posteridade.

(*) Dom Newton Holanda Gurgel , (Acopiara), Bispo Emérito do Crato, neto de Henrique Gurgel do Amaral Valente.